"De tudo escrito, amo apenas o que se escreve com o próprio sangue."

Mudanças e perspectiva

O conhecimento popular afirma que ao jogar um sapo diretamente na água fervendo ele pulará fora, mas se colocá-lo em uma panela de água fria e aquecer lentamente ele morrerá nela cozido. Dedico esse texto a reflexão sobre esses dizeres, para além da veracidade científica do experimento. Mudanças imperceptíveis ou pouco relevantes no ambiente são muitas vezes menosprezadas por nos afetar pouco. Tendemos à conservação de energia, então sempre fazemos um ponderamento: analisamos se vale empregar o esforço necessário para intervir no mundo. Mudanças insignificantes costumeiramente não valem o gasto energético, preferimos permanecer na panela, nos adaptar, até que a próxima mudança aconteça e o ponderamento retorne. Dessa vez adaptados ao ambiente, nos convencemos de que não vale o esforço de mudar e o ciclo começa outra vez. O que o sapo não sabe (mas Hegel sim) é que mudanças quantitativas levam a mudanças qualitativas. A água que era classificada como fria se torna quente através de um processo histórico de mudanças insignificantes, e o sapo é morto cozido nela.

Isso me faz refletir sobre a importância da referência na nossa percepção sobre uma mudança. A temperatura de vinte-e-três graus celsius que eu experiencio em São Luís me parece muito mais fria do que a mesma temperatura na cidade de São Paulo. Acredito que esse fenômeno ocorra porque essa é a temperatura mais baixa que normalmente ocorre em uma cidade equatorial. Já em São Paulo, com um clima mais temperado, presenciei temperaturas em torno de sete graus, ressignificando o meu conceito de frio nesse ambiente. Isso, todavia, não invalida a percepção de frio de um maranhense, ele sente frio e essa é a experiência dele. Mas outra pessoa pode não reconhecer aquilo como frio e essa é a experiência dela.

Algo que depois que eu entrei em contato não consigo mais ignorar, é a relativização dos conceitos metafísicos e a rejeição por conceito universais imutáveis, o exemplo mais drástico disso pode ser a ética. Em outras sociedades é comum matar recém-nascidos que possuam alguma deficiência, no entanto a nossa decidiu que isso é errado. Nietzsche afirma em Assim Falou Zaratustra:

Este sinal vos dou: cada povo fala a sua língua do bem e do mal: o vizinho não a entende. Ele inventou para si sua língua, nos costumes e no direito.¹

Cada sociedade possui sua ética, cada sociedade afirma que esse é o bom caminho. Ao comparar sociedades tão diferentes vemos claramente essas diferenças, mas mesmo dentro da nossa sociedade a ética não é estável, o tempo a modifica constantemente para seguir as mudanças da nossa cultura. Na política existe o conceito de janela de Overton, que é o conjunto de assuntos aceitáveis no debate público. A janela de Overton muda constantemente, as vezes até para debater coisas que hoje consideramos repugnantes. O fato é, as mudanças são parte inerente do mundo e são submetidas a referência do observador, não devemos invalidar a experiência alheia, mas sim entender e apresentar a nossa perspectiva para juntos construir um ponto comum de empatia.

  1. NIETZSCHE, Friedrich (Ed.), Do novo ídolo, in: Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém, São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2021, p. 54–56.

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